Uma travessia...por vezes fácil, outras vezes difícil. Um deserto, onde se tenta desesperadamente encontrar um oásis para ai permanecer, pelo menos na triste ilusão de ser feliz.

maio 28, 2004

"Demoraste demasiado tempo e a própria natureza das coisas afastou-te do teu objectivo."

O Aprendiz desceu da árvore. Hoje chegara mais alto. Estava, a pouco e pouco, a perder o medo e a ganhar confiança. Cada ramo era mais familiar, cada salto impossível antes parecia agora de uma simplicidade estúpida. O medo da queda não existia porque aprendera a cair de pé ou, no mínimo, a saber cair sem se magoar. Desceu e sentou-se no chão. Adorava sentar-se no chão por se sentir bem e extremamente descontraído. O Mestre assomou por detrás dele, projectando sombra no chão.

"Sentes-te mais forte?". O Aprendiz deixou-se cair no chão, olhando na direcção do céu viu o rosto sorridente do Mestre. Não respondeu e por isso foi o Mestre a voltar a falar "Há muito tempo disseste que conseguirias chegar ao topo desta árvore. Cada dia que passa chegas mais alto, mas só um pouco mais alto. Eu diria que já conseguirias chegar lá acima, porque não conquistas esta árvore e te sentes mais forte e feliz?". O Aprendiz sentou-se novamente para não ver o sorriso do Mestre, tão indecifrável quanto perene. E mais uma vez nada disse. Levantou-se e começou novamente a subir à árvore. As horas de intenso treino já o levavam a não usar tanto assim os braços. A sequência de saltos foi perfeita e enquanto chegava ao fim da parte conhecida do percurso cerrou os dentes. A partir daqui ele sabia que era fácil mas não conhecia o caminho. Gestos tão simples que eram necessários e que ele sabia que tinha que fazer. Os saltos novos sentiam-se como velhos e o topo estava muito perto. O salto final... e enquanto voava em direcção ao último ramo finalmente feliz e de braços abertos para abraçar uma felicidade tão ansiada, aconteceu algo que ele talvez pudesse chamar de injusto. Uma rajada de vento, saída de entre tantas outras árvores soprou o ramo para fora do alcance do Aprendiz. Caiu. Bateu em dois ramos e depois no chão coberto de uma relva fofa mas dolorosa. As escoriações arderam em contacto com as lágrimas. O punho doeu quando atacou a árvore com um soco. O mestre não sorria, mas sabia o que tinha que dizer "Demoraste demasiado tempo e a própria natureza das coisas afastou-te do teu objectivo. Essa árvore nunca será, garanto, a árvore que vais conquistar." O aprendiz cerrou os dentes. Veria a árvore todos os dias a partir desse, na certeza que perdera ali uma oportunidade para ser feliz. Só se interrogava, enquanto caminhava para casa com o Mestre... ficariam marcas da sua passagem naquele tronco, naqueles ramos, em cada folha?...
(Zica, www.naoqueremouvir.blogspot.com)

Este conto não foi escrito por mim, mas gostei mt dele. Ainda há gente que escreve coisas fixes e bonitas!
A esperança mantém-se...

3 comentários:

José Tiago Piçarra disse...

Obrigado, muito e muito obrigado. Acho que esta é a minha primeira citação a sério. E gostei de saber que sou "um fixe"... é melhor que ser "um sim senhor" ou "um hmmm". :)

Pedro disse...

E depois sou eu que tenho fãs... yeah rigth.. o Zica é mesmo assim, é um fabulador nato, apesar das fábulas inserirem animais nos papeis mas atendendo que eu trato o aprendiz por gafanhoto, é um fabuladeiro. Quero saber é se há algum post meu que valh aa pena citar =P

Papua disse...

Deve haver...mantém a fé, algum dia alguém há-de citar-te! Estou a brincar.Mas se algum dia escreveres alguma coisa mesmo fixe, eu roubo-ta! :P